Texto de fevereiro de 2008

Eu e Mr Catra. Ele não foi comigo, mas seria legal se tivesse ido.
Vou começar explicando como eu vejo o carnaval: não vejo. Evito tudo. Nem na tv eu acompanho. Ela fica sintonizada no Fantasia. Evito tudo mesmo, até os “programas alternativos”. Porque uma coisa é você odiar carnaval e não ir conferir o carnaval de rua, mas mesmo assim ir em festas não-carnavalescas, que embora não toquem “música de carnaval”, são embuídas pelo espírito carnavalesco. Aí surgem essas paradas tipo “Carna-Rock”, “Electro-Carna” ou “Quarteto de Cordas-Carna”. Eu evito até essas coisas. Soa como uma piada sem graça tanto asco organizado.
Mas eu não quero ser chato, e acho que cada um faz o que quiser da sua vida. E o que eu faço da minha vida no carnaval é nada. E tem dado certo há anos. Até agora. O fim de semana foi tranquilo, mas segunda-feira, meu amigo Pedro ligou para mim, avisando que estava numa praça aqui perto de casa, e que queria companhia para beber. Como parceria é parceria, fui encontrá-lo para tomar uma cerveja, passar umas 2 horinhas, e voltar para casa. Tá tranquilo.
Daí começamos a rodar por Bonsucesso. Meu amigo me convenceu de que valia a pena dar um rolê mais bacana – porque o rolê em Bonsucesso é deveras caído – e decidimos dar um pulo na Lapa. Tem um bar lá que eu gosto, daria para ligar para outros amigos e pronto, seria uma noite bacana – ainda que fora do meu plano, mas eu também não levo minhas convicções tão a sério assim.
Pegamos o 497. Nice, great success. Então quando estávamos no começo da Avenida Presidente Vargas, meu amigo diz:
- Tá a fim de ir naquele puteiro, a Vila Mimosa?
- Eu não vou em puteiro, cara.
- A gente vai lá só para conhecer!
- Não… sossega aí.
- Cara, é pertinho daqui. Se a gente saltar agora, a gente anda uns 15 minutos só. A gente não ia beber na Lapa? Bebe na Vila Mimosa que tem umas minas peladas!
- Hmmm… com certeza é melhor que ver os travecos da Lapa. E a gente tem que conhecer isso um dia. Que se foda, vamo lá!
E descemos do ônibus. Fomos caminhando pela Presidente Vargas. A gente não estava só a “15 minutinhos” do começo da Praça da Bandeira. Tinha que andar um bocado, na verdade. Aliás, para quem não sabe, é na Presidente Vargas que ficam os carros alegóricos antes de entrarem na Marquês de Sapucaí para o Dudu Nobre comentá-los. Então fiquei caçando o tal carro dos judeus amontoados, para ver por que eles estão chorando dessa vez.
Não achei. Depois eles reclamam quando uns nazistas bostinhas dizem que o Holocausto não existiu. Seguimos pela Presidente:
- Legal, legal. - disse o Pedro, animado.
- É, vai ser legal.
- Quanto você tem de dinheiro aí?
- Não interessa, Pedro. Eu não vou pagar nenhuma prostituta.
- Ah, cara! Pô, se já tiver lá…
- Não. Eu não pago por sexo. É o limite, cara. O cara que paga por sexo é aquele garoto gordinho que só podia jogar bola na rua porque era o dono da bola. Ele não sabe realmente jogar, ele não é legal o bastante para deixarem ele jogar mesmo ele sendo ruim, e como as pessoas precisam muito daquela bola, não podem nem falar para ele como ele joga mal. Eu não quero ser esse garoto.
Na verdade, eu era o dono da Adidas que quicava aqui na rua, mas… bom, o 2Pac dizia que é hora de mudanças.
- Mas só um boquete de 10 reais! - insistia o Pedro.
- O quê?
- Um boquete por 10 reais. Se tiver um boquete por 10 reais, eu vou!
- Eu não. Você obviamente não dá o mesmo valor que eu à um boquete. Veja bem, quando você coloca um valor em algo tão especial, você simplesmente tá jogando fora a beleza do gesto. Tá dizendo “10 reais. É isso que vale um boquete.” Eu não vou pagar por boquete nenhum. Nem você. Não enquanto eu estiver de olho. Duas coisas sensacionais que eu nunca vou te deixar comprar: boquetes e pochetes. O primeiro para não desvalorizar o gesto. O segundo é porque embora sejam extremamente úteis, são ridículas. Se as mulheres usam salto-alto mesmo que isso não seja a melhor coisa para a saúde delas, nós podemos nos privar das pochetes. Carregue coisas com a mão, diabo!
Quando estávamos já na Praça da Bandeira, vinham 3 caras caminhando em nossa direção. De repente um caiu para trás e dois continuaram. Os caras se ligaram, olharam para trás e tava lá o amigo deitado tremendo loucamente. No começo, eu pensei que o cara tava zoando. Talvez fosse essa a 6ª velocidade da Dança do Créu. Mas aí o cara continuava tremendo, e eu me liguei que as roupas dele estavam limpas, e como o chão tava muito sujo e molhado por causa da chuva; para o cara estar zoando, na moral, tem que ter um BAITA senso de humor. Então era isso: mais do que um puteiro, essa noite eu veria um ataque epilético!
Vou contar para vocês que, olha… um ataque epilético ao vivo, ali, de forma absolutamente inesperada: é muito mais engraçado do que você imagina! MUITO mais.
Andamos mais um pouco.
- É agora, Pedroca.
- Sim, sim. Tô ficando com medo. Sei não hein, Rios.
- Não, mas não vamos desistir. Estamos em maioria.
- Contra o quê?
- Não sei. Pensei que você ia ficar confiante se eu falasse isso.
E chegamos na Vila Mimosa. Eu tinha que fazer isso. Como carioca, eu precisava falar “Eu conheço a Vila Mimosa.” Finalmente eu conheceria esse estabelecimento de que ouço falar há anos! O lugar que eu sempre descrevi para os amigos de fora do Rio como “Cara, aqui tem um puteiro que tem mulher sem-braço. Veja bem, não é uma metáfora. Falo de seres-humanos do sexo feminino sem os membros superiores!”
Fomos andando e de imediato eu fiquei decepcionado. Não era visualmente como eu pensava. Eu imaginava que fosse uma loooonga vila com várias casas dispostas uma de frente para outra. Mas ela é assim: uma vila curtinha com 2 galerias principais, vários botecos e muitos quartinhos. Umas putas transitam na rua e bom, eu não fiquei decepcionado com elas. Eu realmente já imaginava que elas fossem feias. São. Umas um pouco, outras bastante. Umas têm um aspecto meio lamentável mesmo. Teve uma BEM feia e assustadora que eu esbarrei nela e ouvi um eco “AIDS!”
Havia também gordaças! Veja bem, nada contra gente gorda, vamos ser amigos de todo mundo e deixar todo mundo brincar. Mas havia algumas prostitutas BEM gordas. Havia uma especial que não era gorda do tipo gorda. Era gorda do tipo FETICHE de comer gorda. O cara sai do trabalho e fala “Malandro, tenho que comer uma gorda! Mas tem que ser muito gorda! Ela tem que estar comendo uma empadinha de frango enquanto eu estiver comendo ela!”
Como eu não estava lá para provar nenhuma delas, continuei a circular na área. Vi bastante putaria, mas nada me impressionou muito os olhos. Eu não tava com o sensor da sacanagem ligado. Tava realmente dando um rolê científico. Tipo quando você compra a Playboy por causa da entrevista.
Passando numa das galerias, um pouco distraído e tomando cuidado onde esbarrava, algo terrível acontece: uma prostituta de uns 54 anos PULA em cima de mim. Ela deu um salto com suas garras para agarrar meu braço, gritando “VOCÊ É MEUUUU!”
Foi o momento mais fodido. Ela ria. Eu dei uma esquivada TÃO ninja que ela nem raspou na minha jaqueta. Foi foda. Felizmente ela sacou que eu não queria contratar seus serviços e não correu atrás. Ética, sempre.
Paramos um pouco para respirar. Ficamos vendo uma mina dançando a Dança do Créu nas velocidades 2 e 3 (as menos robóticas e mais sensuais, por assim dizer). Acho que nesse momento, deixamos sim o sensor da sacanagem ligado um pouquinho. Tava bonito. E a gente precisava relaxar do susto. Mas continuamos desbravando logo que chegou na velocidade 5!
Notei que existe uma divisão de classes na Vila Mimosa: um lado é bem pobrão e o outro é mais style. Assim, nenhum dos dois é realmente rico, mas um deles é para o cara que vai todo dia, e o outro é para o que economiza e vai a cada 15 dias.
- Quanto será que ela cobra? - disse o Pedro, apontando para uma puta.
- Sei lá, uns 50.
- Tá maluco! Aquela ali é a puta mais linda que eu já vi!
- Que você sabe que é puta, talvez.
- Cara, 200 no mínimo.
- Tá louco! Aqui tem teto-salarial, cara.
- Hahahahaha.
- Tá vendo, esse é o meu… humor-político.
Ainda circulando, quase entramos novamente no corredor onde a puta velha me assediou. Evitei:
- Não vamos por aí não.
- Por quê?
- Aquela velha, né. Eu não sou dela não…
- Ela já deve ter saído dali, cara! Tem quase meia-hora. Ela já deve ter arrumado um cliente.
- Tu viu a cara dela? Ela não é escolhida nunca! Ela não é escolhida desde que começou nessa profissão. Ela não é escolhida desde antes dessa profissão! Ela não era escolhida nem no time de vôlei da escola, ela não é esco–
- Certo, vamos pelo outro lado.
Demos mais uns rolês, vimos um anão agarrado na coxa duma prostituta. “Então é ASSIM que eles fazem sexo!” e fomos embora.
- Tá feliz, Pedro?
- Tô. E você?
- Sim, sim.
- Bom, eu tô mais ou menos. Eu quero voltar lá mais vezes.
- Mais vezes? A gente acabou de sair do mesmo lugar?
- Eu acho que tô apaixonado por aquela puta de 200 reais.
- Bom, se você der 200 reais, ela pode se apaixonar por você. 4 vezes.
Eu nunca mais volto lá. Nem fodendo. Principalmente para foder, na verdade. E também nem pretendo ir em outros puteiros “para ver se é melhor”. Só queria ir na Vila Mimosa pelo fator cultural, palavra. Não vou em nenhum outro, nem voltar na VM. Se a minha futura esposa estiver lendo esse post, pode ficar tranquila. Se eu me atrasar, é que realmente fiquei preso no trabalho.

